| Década
de 70 |
Década de 70
Os filmes daquela hora
Multiplicaram-se os novos
produtores e filmes. Esta, a euforia dos anos 70,
do Brasil Grande proclamado pela ditadura militar
e aceita por 100 milhões de amordaçados
mentais. O cinema dito de esquerda alimentava-se
das verbas do Instituto Nacional do Cinema e,
depois, da Embrafilme. Alguns produtores
independentes, para escapar à Censura e faturar
em cima da passividade crassa dos brasileiros,
entraram de cabeça na sociedade de consumo:
uniram a chulice à permissividade erótica, e
nasceu a pornochanchada. E, como os produtores
desse gênero eram inconseqüentes e passavam
fácil pelos moralistas de aluguel, a pornografia
grassou absoluta, enquanto o erotismo sério e as
abordagens políticas e sociais ousadas sofriam
as perseguições costumeiras: mutilações,
interdições provisórias, proibições
definitivas.
Além de financiar boa parte dos
"eleitos" , O Governo Federal
distribuía os prêmios Coruja de Ouro:uma
espécie de Oscar subdesenvolvido, com dinheiro e
troféu; prêmios adicionais de qualidade; e
gordas verbas através dos chamados prêmios
percentuais de bilheteria: quem arrecadasse mais
ainda seria beneficiado com o prêmio de bom
comportamento social. Uma orgia...
Firmou-se com isto a indústria?
Não. Mas muita gente ganhou dinheiro fácil.
Nesta mescla de paternalismo e mecenato, de
reserva de mercado "nacionalista"
associado à lei de oferta e procura, a glória
do cinema chulo. As estatísticas não mentem:
1970:82produções, 1971:95produções,
1972:71produções, 1973:57produções,
1974:77produções, 1975:86produções,
1976:87produções, 1977:72produções,1978:101produções,
1979:93produções.
Um total aparentemente animador,
821 películas - mais da metade de obscenidades.
As bonitinhas se despiam. Mas ainda não era o
sexo explícito...
O problema(eterno) era o da
exibição. Nem tudo o que se fabricava se
vendia. Há números elucidativos: em 1973 foram
lançados 57 filmes, a mesma quantidade dos
produzidos - mas isto não significou escoar a
safra do ano e sim entregar artigos velhos
armazenados há algum tempo. No ano seguinte, 74
foram estreados, 3 novos não tiveram vez. Em
1975, apenas 79 chegaram as telas, 6 produções
ficaram sem salas para aresentação. O fenômeno
repetiu-se em 1976: somente 76 lançamentos,
deixando 11 de fora.
A crise atingiu severamente o
mercado em 1977: 29 lançamentos, menos 43 do que
o produzido. Na temporada seguinte,
exclusivamente 30 estréias, justamente no auge
da superprodução. Alterada a lei, ampliando o
número de dias de exibição obrigatória, que
agora atinge quase 140 dias, 109 filmes de longa
metragem chegaram ao público em 1979. Mesmo
assim, as prateleiras continuaram abarrotadas da
geléia geral à espera de datas.
Que espécie de filmes nativos os
brasileiros estavam vendendo? Das dez maiores
receitas de 1975, por exemplo, somente dois
filmes pretendiam ter o caráter de produção de
alto nível, Guerra conjugal e O Casal. A renda
mais alta foi a de Jeca Macumbeiro, chanchada de
Mazzaropi, seguida de uma comédia infantil dos
Trapalhões, mais seis pornochanchadas e um
dramalhão melódico do cantor- matuto
Teixeirinha. Na faixa de 1970 a 1975, Jeca
Macumbeiro manteve a liderança. Há uma segunda
receita sensacional, a do épico Independência
ou Morte, cuja promoção ganhou o apoio do
então ditador-do-dia, o general Garastazu
Médice, como garoto-propaganda. Seguiram-se
três filmes infantis, sendo dois dos
Trapalhões, quatro pornochanchadas, e um filme
do cantor da classe média, Roberto Carlos.
Pela afluência, tínhamos um
cinema pobre. Os filmes de Mazzoropi foram vistos
no máximo, 2.800 espectadores. As grandes
chanchadas eróticas coloridas, como a excelente
A Viúva Virgem, não ultrapassavam os 2,5
milhões de pagantes. As comédias infantis dos
Trapalhões recebiam 2 milhões de espectadores -
crianças, na maior parte. Independência ou
Morte foi o "milagre brasileiro" de uma
era de milagres: 2 milhões e 957 mil pessoas.
E os custos? E os lucros? Em 1977,
o custo médio já era superior a 2 milhões de
cruzeiros e somente 16 dos 29 filmes estreados
proporcionaram lucros obtendo renda bruta acima
de 4 milhões de cruzeiros; e dos 59 que
circularam, além daqueles, todos ficaram no
vermelho, com rendas inferiores a 2,8 milhões de
cruzeiros a serem divididos entre produtores,
distribuidores e exibidores. Um faturamento
condizente para assegurar retorno de investimento
deveria ultrapassar 10 milhões de cruzeiros.
Apenas superaram este patamar Dona Flor e seus
Dois Maridos, um filme dos Trapalhões, outro de
Mazzaropi, uma pornochanchada, Xica da Silva e
Gente Fina é Outra Coisa. Em 1978, as
"comédias picantes" continuavam na
preferência popular em 50% dos casos; o baixo
orçamento, que nos anos 80 desaguaria, nos
licenciosos e horríveis filmes de sexo
explícito, explicava o fenômeno. Continuou o
reinado dos Trapalhões e dos semipornôs de luxo
- caso de A Dama do Lotação, que arrecadou mais
de 78 milhões de cruzeiros. Mas em 1979, o custo
médio da produção sobrepassara 3 milhões de
cruzeiros e somente 11 películas deram lucro.
Caiu a frequência, subiram várias vezes os
preços dos ingressos, arrefeceram as rendas,
aumentaram os luvros industriais. Começava um
período de recessão que se prolonga até hoje.
Era o ditoso cinema nú... nas
cores do arco-íris. Afinal, foi nesta década
que os filmes coloridos expulsaram da tela seus
rivais em preto-e-branco. E os temas abordados
visavam um lucro espúrio: filamavam-se obras
literárias antigas e modernas para ganhar
dinheiro do Instituto Nacional do Livro.
Filmavam-se episódios históricos para estar em
dia com a impostura do Brasil Grande. Ao tirar a
máscara, estavam todos nús.
Principais filmes:
Anjos e demônios, Um Uísque
Antes... Um Cigarro Depois, Como era Gostoso o
Meu Francês, Viver de Morrer, O Homem do Corpo
Fechado, Toda Nudez Será Castigada, São
Bernardo, Amante Muito Louca, A Rainha Diaba,
Sedução, As Moças Daquela Hora, Perdida,
Lilian-M Relatório Confidencial, O Predileto,
Lição de Amor, A Extorção, A Lenda de
Ubirajara, Aleluia, Gretchen ,Marília e Marina,
Contos Eróticos, Chuvas de Verão, Lúcio
Flávio, Passageiro da Agonia, Nos Embalos de
Ipanema e O Caso de Cláudia, entre muitos outros.
Principais atores e
atrizes:
Sônia Braga, Sandra Bréa, David
Cardoso, Tarcísio Meira, Vera Gimenez, Roberto
Bonfim, Francisco di Franco, Sandra Barsotti,
Vera Fischer, Gracindo Jr., Zózimo Bulbul, Nuno
Leal Maia, Carlos Kroeber, Monique Lafond, Maria
Sílvia, Marília Pera, Denise Bandeira, Zezé
Motta, Kátia d'Angelo, Angelina Muniz, Bibi
Vogel, Ana Maria Kreisler, Aldine Müeller e
Helena Ramos.
Bibliografia
Salvyano Cavalcanti de Paiva
Ed. Francisco Alves
1989 - RJ
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